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Línguas, Almas e Lutas

Línguas, Almas e Lutas

Por Madson Luis Moda - Sociólogo Filomata Santareno

Temos alguns exemplos na História da Humanidade (conturbada História da Humanidade) que incorporam a essência e circunstância propícias do seguinte pensamento de Antonio Gramsci: “Por que as línguas são focos de resistência? Porque uma língua não é só um meio de comunicação. Uma língua é uma visão de mundo”. Quando este citado italiano, jornalista de formação e intelectual apaixonado pelo ativismo político em sua época, traz à lume tal discernimento, lancei-me ao desafio de porfiá-lo, conforme a competência do cronismo dos elementos históricos, aqui elencados, pudesse viabilizar.

Podemos encetar a “viagem”, de forma curiosa, junto ao campo religioso. E digo mais, no campo de certas minúcias como da cultura litúrgica religiosa; observem: em se tratando de tantos e tantos papas, é a partir exatamente da 14ª figura nessa sucessão que o Bispo de Roma, assumindo a Cátedra de S. Pedro, acaba estabelecendo a supremacia de seu episcopado sobre as demais comunidades cristãs existentes; algo extensivo aos nossos dias. Estamos falando de Vítor I, um típico e – percebe-se – bem-sucedido cidadão africano no restrito seio do universo papal. Ele, avocando a condição de Sumo-Pontífice, a partir de toda uma influência latina no contexto da então Igreja, procura, mesmo, viabilizar, no sentido de lavrar, o latim enquanto língua eclesiática, no lugar da língua grega; considerando os tempos predecessores, de pungente e deliberada perseguição.

Lançando um olhar discernente ao fato: a figura de Vítor I teria dado algum espaço, no sentido de adequação em prol de uma língua mais viável para aquele categórico momento, promovido dentro da faixa mediterrânea, em que a Itália mostrava todo o esboço de pujança.

Não obstante, algo que já caminha nos parâmetros da palavra “paradoxo”, quanto aos termos do nosso ilustrado tema, a coisa orbita focadamente em Johannes Gensfleich Gutenberg, que dispensa apresentações, e Martinho Lutero, que dispensa, menos ainda, qualquer tipo de apresentação. Nada que represente qualquer embate direto e incoerente (considerando-se o sensível hiato de tempo), mas a partir de suas figuras no campo ideológico conseguirem esboçar uma curiosidade sensível, em termos de um processo cultural inevitável, em termos de mesmo idioma.

No que Vítor I entra para história quanto à determinação da data da festa da Páscoa, enquanto elemento fixo para o mundo desde a sua então época, essa figura papal, também se destaca quando Johannes Gensfleisch Gutenberg reproduz, mediante 42 linhas por folha, o texto bíblico conhecido para a época, de modo integral, a partir da Vulgata Latina (concebida pela pessoa de São Jerônimo, no século IV), confeccionada na primeira grande imprensa de tipos móveis reutilizáveis, apresentada em Mainz (Alemanha), na mesma língua em que a então sociedade europeia necessariamente festejava enquanto língua de sensível legado do primeiro papa africano.

Grassando, também, na histórica enquanto especialista em Ética, Metafísica e Matemática, a figura de Martinho Lutero amargou a condenação de seu então movimento, via excomunhão, no ano de 1520, para daí, em 1521, implementar um de seus mais cobiçosos planos: a tradução da Bíblia, mediante o que fosse avaliado enquanto protocanônico, para a língua alemã. Substituindo assim, dentro de uma asserção popular, a vigência litúrgica do Latim, que com a invenção histórica de Johannes Gutenberg, já vinha de uma canonização desde o século XV, valorizando a versão do primeiro grande livro impresso: O Livro dos Livros (no seu inefável valor, mesmo contemporâneo; considerando mais de 600 anos do evento e seus efeitos).

O âmbito religioso implica uma perturbação das mais canhestras a respeito. Considerando o que seja a Ciência Moderna o diadema de “pai”, por conta, cai como uma luva em Galileu Galilei, e, desde agora, veremos quais veredas das mais singulares a língua serviu no sentido de externar – até de forma disfarçada – quantos conceitos para a Ciência não eram possíveis. Trata-se de algo curioso: o berlindado Galileu Galilei tinha suas descobertas difundidas longe da língua do “status quo” acadêmico (entendo-se aí o caráter subversivo, usual do físico da cidade de Pisa). Enquanto o academicismo pleiteava nas hostes do Latim, a figura de Galilei pleiteava sua imponência, no sentido de positivamente popularizá-la, por meio da popular e corrente língua italiana.

Há elementos mais peculiares e ardilosos a respeito: com a obra “Diálogo sobre Os Dois Máximos Sistemas de Mundo”, o físico italiano lança à baila do povo da época, um diálogo  acerbo sobre o que seria a Terra girar em torno do Sol e vice-versa, entre dois interlocutores ciosos e ferrenhos; dentro de uma estratégia disfarçada no sentido de propagar o heliocentrismo copernicano, junto ao povo da Europa, eficazmente. Platão, por conta de “O Banquete” viria a elogiá-lo, talvez, invejando-o. Diante do que a comunicação vividamente didática permitiria no uso da Língua na formação inequívoca das mentes. Como agora!

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